Prof. Dr. phil. habil. A. A. Bispo

BRASIL-EUROPA

PROCESSOS CULTURAIS
ANAIS

Prof. Dr. phil. habil. A. A. Bispo

BRASIL-EUROPA

PROCESSOS CULTURAIS
ANAIS

Decadência da música sacra no Brasil

 na visão de

Vincenzo Cernicchiaro (1858-1928) 


ACADEMIA BRASIL-EUROPA

programa de estudos

pelo centenário da


Storia della musica nel Brasile, Milão 1926

Excertos de estudos e diálogos em Colonia, Roma e Milão
Conservatorio G. Verdi - Università Cattolica del Sacro Cuore
50 anos da obra e sua edição

1975/76

A decadência da música sacra, título do XI capítulo da Storia della Musica nel Brasile de Vincenzo Cernicchiaro, que trata da época de 1844 a 1889, foi objeto de particular atenção nos estudos internacionais concernentes à música sacra do projeto musicológico brasileiro desenvolvido a partir de 1974 na Europa.


Embora já tendo sido considerado e discutido no âmbito do Centro de Pesquisas em Musicologia em São Paulo desde a década de 1960, esse capítulo foi pela primeira vez tratado e discutido com pesquisadores da música sacra, musicólogos, historiadores eclesiásticos e teólogos no ano em que se rememorava os 450 anos de Palestrina. 


Na jornada de estudos realizada em Roma, na Semana Santa de 1975, considerou-se que a atenção não devia ser voltada prioritariamente a Palestrina e seu século, mas à continuidade de concepções e práticas da época tridentina através dos séculos e, em particular, à sua retomada idealizadora no movimento restaurativo do século XIX, em particular no âmbito do Cecilianismo. 


Essas reflexões foram fundamentalmente marcadas por uma crítica à visões, ao ideário e à produção sacro-musical do Cecilianismo, reconhecidas como expressões européias ou eurocêntricas que necessitariam ser revistas por serem inadequadas às exigências da atualidade dos anos pós-conciliares. O Cecilianismo, nas suas diversas contextualizações, do mundo de língua alemã ou na Itália, foi uma expressão do século XIX como aquele da Restauração, que na esfera eclesiástica teve o seu principal marco no Concílio Vaticano I. Correspondentemente, foi reativo ou reacionário, anti-secularizador e anti-modernista. 


Como Karl-Gustav Fellerer (1902-1984), principal representante da pesquisa da música sacra católica posteriormente salientaria em Simpósio Internacional, não a imitação de um estilo visto como palestriniano, mas sim a orientação segundo um espírito que teria marcado a sua obra devia ser o objetivo último. 


Concepções de música sacra de Cernicchiaro


O título e o conteúdo do texto de Cernicchiaro revela que o autor esteve em parte comprometido com ideais de reforma sacro-musical do século XIX e que teve a a sua continuidade no XX, cujo principal marco foi o Motu Proprio de Pio X (1903), foi porém ao mesmo tempo representante de uma posição diferenciada, o que vinha a encontro sob muitos aspectos àquela de Fellerer e que por isso despertou extraordinário interesse. Embora tratando no seu capítulo dos anos entre 1844 e 1889, o seu texto revela que foi escrito a partir desse documento já nas primeiras décadas do século XX, argumento sob muitos aspectos a partir do Motu Proprio de Pio X. 


O capítulo sobre a decadência da música sacra foi não só alvo de relativações históricas, expressão de ideário e visões que deviam ser repensadas, como também ao mesmo tempo admirado pelas colocações lúcidas e corajosas do autor. que teve a coragem de relativar colocações de Pio X. Foi neste sentido, discutido em colóquios de musicólogos e doutorandos, marcando o posicionamento perante o restauracionismo anti-secularizador do século XIX que teria a sua expressão em tese de doutoramento defendida em 1979.


A consideração desse texto de Cernicchiaro trouxe à consciência a necessidade de diferenciações de posições e visões de músicos e pensadores católicos do século XIX.


Cernicchiaro parte nas suas colocações, que na música sacra poder-se-ia distinguir duas tendências na segunda metade do século XIX: a tendência que denomina de mística de compositores marcados pelo pensamento religioso e uma tendência antagônica, de índole teatral. A expansão da arte lírica, da ópera, teria tido como desenvolvimento correlato a decadência da boa música sacra. 


Essa visão de Cernicchiaro revela de forma indubidável o anti-secularismo que marcou o movimento cecilianista do século XIX. O seu pensamento é marcado por uma idealização do passado, por uma época que teria sido de plácida serenidade de tempos de pureza. É de se salientar, porém, que Cernicchiaro não era fundamentalmente contrário á tradição coro-orquestral da música sacra, como os cecilianos mais severos. Ele menciona com respeito a ação edificante da obra do Pe. José Maurício, uma tendência mística de Sigismund Neukomm, mas também a obra sacro-musical de Mozart, Haydn e até mesmo Francisco Manuel da Silva. 


Cernicchiaro inseriu-se assim no rol daqueles que, também na Europa, não seguiam as tendências mais rígidas do pensamento sacro-musical de cecilianistas alemães. A decadência ter-se-ia acentuado para êle com o progresso do estilo melodramático, levando ao profano. A arte teatral, com o seu caráter fascinante, teria vencido o nobre estilo sacro.  Cernicchiaro trouxe assim à consciência a necessidade de estudos que atentem às várias posições do movimento restauracionista do século XIX, em particular do Cecilianismo, o que foi discutido em encontro realizado em Ratisbona, em 1976.


Cernicchiaro cita um discurso de Domingos Jaci Monteiro (1831-1896), publicado em O Brazil Artístico, Revista da Sociedade Propagadora das Bellas-Artes do Rio de Janeiro, em 1857, no qual o erudito literato e político, teria salientado a ação da música profana no espírito da sociedade de sua época. Uma falsa erudição musical, uma febre de imitação forçada, como por moda, levaria os artistas, receiosos de parecerem pouco instruidos, a desvalorizarem o que era nacional ou de o aperfeiçoarem, tornando-se executantes de música alheia. Nessa menção constata-se já a vigência de concepção de música nacional em meados do século XIX, que Cernicchiaro compartilha, mas que difere nos seus sentidos fundamentalmente daquela do nacionalismo de décadas posteriores.


Fatores de decadência segundo visões de Cernicchiaro


Lembra que há alguns anos ter-se-iam publicado em jornais do Rio de Janeiro artigos que salientavam a necessidade de suprimir-se a música anti-religiosa das igrejas, escritos pelos mais renbomados músicos e críticos da capital. Essa campanha não tinha tido sucesso, embora tenha sido conduzida com empenho. Via, como um dos fatores da decadência, a própria igreja, que, sem atentar à qualidade artística, permitia ou promovia. banalidades e vulgaridades. A maior culpa nessa falta de critério artístico seria os professores, organizadores e diretores de solenidades e festas que, procurando lucros, preferiam um repertório de produções híbridas e amorfas. 


O Gregoriano e o repertório sacro-musical de séculos


Cernicchiaro reconhece que já há algum tempo promovia-se um novo estilo de música sacra, essencialmehte litúrgico, digno, de expressão severa e elevada. Salienta ter o Pio X dado a instrução de se reestabelecer o canto Gregoriano, que teve sempre o ardente ideal de combater os abusos . Este documento é visto por Cernicchiaro como expressão de um princípio sólido e salutar, o de dar a toda a Igreja a sua música do passado, tem, porém, a coragem de relativá-lo. Para Cernicchiaro, a arte, como as ciências, a filosofia, passam por um processo de transformação, sendo a evolução aceitável se não contrariar valores básicos, que seriam a-temporais. O que os cristãos sentiam como música religiosa nos primeiros séculos e na Idade Média, não seria o mesmo da atualidade. 


A causa da decadência da arte sacra seria a música que contraria a essência do pensamento religioso. Não apenas com o canto Gregoriano,m mas também com obras dignas do ideal antigo, aquele capaz de promover a piedade e a devoção. Esse sentimento ter-se-ia mantido vivo através dos séculos, de Palestrina a Alegri, de Bach a Pergolese, de Mozart a Beethoven, de Cherubini a Gounod. Assim, para Cernicchiaro, não seria o retrocedimento a tempos remotos como visto por Pio X o caminho. Não desejava negar que o canto Gregoriano fosse verdadeira expressão da liturgia católica, como, segundo êle defendido por uma minoria, mas não se poderia deixar de reconhecer a sua monotonia e a ausência de outros valores, rítmicos e melódicos.


A arte da música sacra moderna - daquela de bons compositores - não seria aquela vulgar ou lasciva que levara o Papa João XVII no século XV à Docta Santorum. Das igrejas não se devia banir a música de qualidade, o tesouro sacro-musical criado em tantos séculos desde a época de S. Gregorio. Não seria necessário retroceder ao Gregoriano, ao canto firme da Idade Média. A música não dever-se-ia afastar do gosto estético do mundo moderno. Devia-se procurar uma síntese, mantendo uma continuidade entre o passado e o presente através de novas formas e novas expressões nobres e elevadas. Desjava esperar que essa idéia de retorno, a instrução emanada de Pio X pudesse ser em data não muito distante revogada, a fim de que a rica corrente da música sacra pudesse retornar às igrejas.


Diferenciações quanto à música sacra coro-orquestral


Se o espírito do tempo, dos compositores contemporâneos não permitisse abraçar o ideal da arte sacra, dever-se-ia então recorrer às obras de José Maurício, que fora intérprete fiel do sentimento sacro. As orquestras daqueles tempos não eram como aquelas contemporâneas, veículos de ardor, de um sentimento de delícia profana, música de tumulto que ofenderia a arte sacra.  Afastadas deviam ser obras incompatíveis com o culto, emprestadas de obras profanas, até mesmo bufas, como Marcus Spada de Auber, I Briganti de Mercadante ou Le Vispo Comari de Suppé. Essas seriam profanações, assim como peças como uma cavatina da ópera Il Corsario, adaptada a um Laudamus, um Dominbe Deus sobre área de Donizetti. Ter-se-ia ouvido uma Ave Maria com música de Offenbach, do Quand j’étais roi de Bencie do Orfeo al l’Inferno.


Cernicchiaro esperava que o Instituto Nacional de Música pudesse possibilitar uma mudança dessa situação marcada por decadência. Por fim louva o Pe. Alpheu Lopes de Araújo à frente da Schola Cantorum de Santa Cecilia, por êle fundada e dirigida. Não se devia retroceder a música religiosa à época anterior a Palestrina, mas a obra, o ensino e a propaganda do Pe. Alpheu exigiam o reconhecimento daqueles que procuravam superar a decadência da música sacra.


Momentos dos estudos e reflexões


- Encontros com Eleanor Dewey, diretora do Instituto Pio X de São Paulo, Pe. José Almeida Penalva do Studium Theologicum D. João Evangelista Enout OSB do Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro desde 1968

- Diálogos com K. G. Fellerer e H. Hüschen e pesquisadores portugueses, 1975

- Cernicchiaro e a música sacra na América Latina.  Culturas Musicais na América Latina no século XIX, 1975

- Vincenzo Cernicchiaro no projeto de fomento da musicologia na Itália e das relações teuto-italianas de K. G. Fellerer a partir de 1975

- 50 anos da edição Storia della Musica nel Brasile. Estudos e diálogos em Milão, 1976

- Diálogos em Maria Laach por ocasião da fundação do Intituto de Estudos Hinológicos e Etnomusicológicos, 1977

- I Simpósio Internacional Música Sacra e Cultura Brasileira 1981 e fundação da Sociedade Brasileira de Musicologia

- Conferências e seminários no Istituto Pontificio di Musica Sacra, Roma, 1995 e 1997

- II Simpósio Internacional Música Sacra e Cultura Brasileira, Mosteiro de S. Bento, Rio de Janeiro 1992

- Ciclo de cursos de História da Música em contextos globais nas universidades de Colonia e Bonn a partir de 1997

- Seminário A Música no Brasil, Instituto de Musicologia da Universidade de Colonia 2000

- Seminário O Brasil na Pesquisa Musical, Instituto de Musicologia da Universidade de Colonia 2001

. Seminário Música e Religião, Seminário de Musicologia da Universidade de Bonn 2003